#Crônicas de um [quase] pai – 005


 

[Estava nascendo, era novembro de 1985, mas eu lembro.

Era dia 19, lembro que chorei com o tapinha do médico, lembro de ter visto o rostinho lindo da minha ‘mãmã’, magro, cansado, suado e choroso pela primeira vez, reconheci sua voz sonorífica pronunciando coisas carinhosas que ainda não entendia. Mas logo me tiraram de perto dela, depois disso nenhuma voz reconhecível, durante aquele banho e agulhas, nenhum rosto que hoje eu pudesse reconher que tenha estado lá, nada do ‘pápá’.

Era um simples hospital à beira da estrada lá em Pernambuco, grande Recife acho, lembro que depois chegou uma pessoa e deixou minha ‘mãmã’ acelerada, era alguém quase familiar mas que não pude reconhecer bem a afeição ou voz, nos levou embora e na saída “li o nome do hospital”: Santa Helena – a mãe do pai do cristianismo romano, Constantino.

Minha ‘mãmã’ me chamava de algo como “meu tchi, ou tchiagu” que depois vim saber que era Thiago. Logo que nasci, um dia em nossa casa em Recife chegara um casal estranho, percebi a felicidade da minha ‘mãmã’ com eles, era um homem bem pretão de voz rouca e uma muié amarela enrrugada, com duas rodelas de vidro na cara. Escutei minha ‘mãmã’ falando de um tal lugar chamado Sõn Paulo de onde eles vieram, o negão me pegou no colo e abriu um riso meio banguelo e bonito feito o meu e dizia: “bebê do bobô, bebê do bobô”, foi quando eu também escutei a muié amarela falando: “pará com issu Nófô, vai assustia o memninu”, mas ele retrucou num monossílabo e continuou: “bebê do bobô, bebê do bobô”. Eram meus avós maternos, Onofre e Martiniana que vieram (foram) de longe para me ver recém nascido.

Depois do meu 1º aniversário lá na terrinha eu vim pra São Paulo, nova gente, novos costumes, novo dialeto, uma nova vida pertinho do ‘Negão e da Amarela’, cá estou até hoje, o Negão se foi e a história agora é de um ‘Outro Thiago’, o Thiago Onofre.]*

 

IMG_1210

 

Celebramos sua vida e vinda;

Estouramos uma champagne;

Ensaiamos seu nome;

Decoramos seu canto e quarto;

Sonhamos seu cheiro;

Embalamos já seu sono.

 

Visitamos sua futura maternidade;

Ouvi seu choro alto estreante;

Vislumbramos seus olhos;

Vivemos o “mito” de ser cabeludo – a ázia de sua mãe;

Sugerimos seu time – Timão, mas há outras opções;

Sentimos seu crescimento e peso nas costas (da mamãe).

 

Paralizei imaginando sua primeira vez nos meus braços logo nascido;

Imaginei seu olhar pra mim nesta primeira vez;

Preparamos seu carrinho, seu berço;

Perfumamos suas almofadinhas;

Deixamos sua mala pronta “pro seu dia”.

 

Te recomendamos ao Abba que o coloca em nossas mãos como mordomos fiéis,

Sofremos o ímpeto de tentar protagonizar seus passos, mas;

Racional não antecipei nada, seja sua profissão, vocação, diploma,

Te damos o mundo, num mundo de possibilidades…

O que falta?! Falta, no tempo certo, você.

 

Eu aqui só quero ser uma voz reconhecível, num lugar aconchegante, onde o aprendizado gera autonômia,

uma mão amiga  pro choro e pro riso, uma mão que protege e também te guia ao “mundo dos Homens”.

E o mundo?!

 

“O mundo é bão ‘Thiago’, o mundo é bão… o mundo é (será) teu”.**

 

Seu [quase] pai,

Thiago Lima – SP. 25,28e29/maio/2013

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*[RELATO METAFÓRICO DE QUANDO NASCI]

**O MUNDO É BÃO, SEBASTIÃO – Nando Reis

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