‘Qual um poeta!


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Oxalá fosse eu um, tivesse a alma d’um, sentisse com’um.

um vívido Neruda¹, um devaneado Gondim², um casmurro Machado³;

coração singelo por que sublime e belo, cria romances pitorescos e tão profundos, caricatos, ‘té finais funestos ou misteriosos, arrebata o leitor platonicamente pela trama;

‘qual um poeta!

olhos ora ali e ora alhures, capaz de enxergar no cotidiano acordado o que muitos mau vêem em sonhos;

‘qual um poeta!

 c’um bocadinho de palavras interligadas disseca com esmero detalhes e cenas economizando instintivamente uns milhares de verbos e adjetivos popularmente usuais;

‘qual um poeta!

quand’um,  raramente se considera um, não é piegas. Abomina sua letra e estilo, trabalha incansáveis noites e horas contra sua auto-abominação criativa, ato vetor de sua excelência e primado;

‘qual um poeta!

dá vida à textos singelos – as vezes tidos pobres, inova verbetes e linguísticas, faz a mente do leitor sentir-se expandir ali perante as simples-excelsas letras;

‘qual um poeta!

vê beleza inda mesmo na morte, d’um tiro d’uma arma que atirado após ter estado um dedo n’um gatilho, matar o mocinho sem matar a paixão nem a curiosidade pela próxima página, frase, parágrafo;

‘qual um poeta!

boêmio, devasso, lascivo, luxurioso e glutão por que rendido ao humano, mas inda puro, santo, beato por que esclarecedor e esclarecido do divino, do belo, sublime;

‘qual um poeta!

d’alma grande por que sempre a entende ou pretende pequena, mesquinha, sem valor auto-imputado;

‘qual um poeta!

profeta do obscurecido mistério aos comuns, para e pelos comuns, comunidade do comunicativo ser, pontífice entre imanente e transcendente;

‘qual um poeta!

visceral na terra, no povo, nas massas, nas gentes, nos desdobramentos vicissitudinários;

‘qual um poeta!

justiceiro nato de quem não nasce, não nasceu, de quem morre, de quem vive matando, mata morrendo, morre vivendo, vive pra morrer;

‘qual um poeta!

um néscio sabido cativante de públicos supra acadêmicos, sábio pobre professor de ricos, rei respeitado inda sem coroa, messias descrido que percorre incessante sua saga salvífica; réu confesso que ninguém quer prender;

‘qual um poeta!

vela verdades que ninguém vê ou se vêem não têm coragem de velá-la, sustentá-la, pagá-la o preço, senti-la sofregamente, defende-la paulatinamente;

‘qual um poeta!

cismado pelo encanto encarnado num “eu”, d’um “vós”, de um “nós”, dos “eles”, dos “outros”, da plenitude altruística, da destituição explícita no ego de quem é narcísico.

‘qual um poeta!

inspirativo e inspirado, inspira homens, bichos e mundos. Cria, recria, descria, procria, traz à existência, materializa, existe sem ser, sendo;

‘qual um poeta!

ser alado que caminha desconhecido de suas próprias asas;

‘qual um poeta…

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¹Pablo Neruda

²Ricardo Gondim

³Machado de Assis

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peregrino | SP, 08-maio-2012. [01h15 da matina]

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