Borel, extremos e esperança.


Borel e suas lutas de extremos.

Riqueza na pobreza, alegria no sofrimento, orgulho na humildade, amizade no ódio, festa em pranto, coisa em gente.

A força de resistência e adaptação daquela “gente” é que me impressionam. Digo: “como um Ser Humano feito a imagem e semelhança de Cristo pode aceitar, gostar e viver em meio tanta doença, lixo, indignidade e ainda se mostrar feliz”. Não por nunca ter visto ou entrado em algum lugar assim. Explico. Cresci numa comunidade pobre da tão conhecida zona leste de São Paulo, antigamente conhecida como favela do Jardim Nove de Julho, entre barrancos, barrakas e barracos. Enchentes, fome, pouca roupa, sem pai. Do nordeste pra cá, de cá pro nordeste várias vezes, no rabo de saia de minha, também resistente mãe, atrás de meu inocente pai, junto com meus dois orgulhosos irmãos mais velhos. Também convivi com armas, sim em menor intensidade, também conhecia, tinha e ainda tenho amigos ladrões, traficantes, presos, assassinos, muitos hoje mortos.

Minha mãe saia de casa para sustentar os três filhos, isso sem deixá-los sem rédeas, manter-nos sãos, quando dava. Ser pai e mãe. Comer ovo no jantar, pensando se terá leite amanhã, mas agradecendo a Deus a groselha de hoje. Lavando roupa no rio, secando elas no muro. Crianças tomando banho em bica, rios ou córregos fétidos. Também já fui destes, muitas meninices, muita bola, muita rua, pés descalços sobre todo tipo de sujeira, muitas cicatrizes, muitos banhos escondidos com outras crianças no rio sujo. A esquina do outro quarteirão era meu horizonte, o pirulito do zorro do colega da escola era sonho, o kichute e o bamba  minha utopia. Cenas de infância, quando na rua sem esperar, chegavam viaturas políciais – a Rota – atirando pra todos os lados, matando gente. Minha mãe preocupada com meus irmãos que não chegavam.

Ver minha mãe apanhando do meu pai, e depois vê-lo ir embora e nos deixar sem nada, dando tudo para uma terceira mulher, amante. Depois sofrer vendo um pai buscando algum filho no pré, chorava, por vezes meu irmão mais velho, Wesley, me buscava antes de tanto chorar: quero meu PAI. Mas eu ainda não entendia como entendo hoje. Meu verdadeiro Pai – Abba, estava sempre lá. Dando força pra minha mãe, provendo o alimento, a roupa apertada, o calçado gasto, a vitamina medicinal da vovó (urgh). Igual no Borel, a vó cuida do neto, que dorme na tia, e cresce com o primo, almoçando no vizinho que não é parente. Vende sacolés, pede fiado na venda, come batata no almoço e no jantar, frita, cozida, assada.

A esperança que tenho para todos do Borel, é a mesma que tive – e ainda tenho e dependo – é a que vi em minha mãe. A esperança na sensibilidade inconsciente de minha mãe ao Sopro do Espírito na ajuda de meus avós. A Suprema capacidade humana de transformar o pior dos cenários em um que se dê pra viver. 

Olho nos olhos das crianças de lá, e lembro do brilho que devia haver nos meus, da alegria no sofrimento. Olho pra aquelas mulheres sofridas e vejo minha mãe, lutando pra nos criar com dignidade, riqueza na pobreza. Vejo alguns homens e lembro de meu avó, negro e analfabeto, pedreiro, corintiano, trabalhador, sempre levando o sustento pra seus sete filhos e Cia, orgulho na humildade. Vejo alguns jovens e lembro de alguns amigos antigos, nem sei mais onde estão, se vivos ou não, muitos no crime, drogas e bebidas, mas sempre me protegendo na falta de meus irmãos, sempre ao meu lado com respeito, amizade no ódio. Vejo algumas festas ou comemorações simples no Borel, sejam de famílias ou igrejas, e lembro das festas de reunião da minha família, das festas de EBD de periferia que participava,  festa no pranto. Admirado vejo todos da Jocum, todos os dias todas as horas, oração, alimento, conversa, choro, tudo pra servir aquela comunidade, ver o Reino acontecer ali, transformar, coisa em gente.

Borel pra mim é isso, essa mistura de extremos e esperança, de que o Sopro do Espírito vai conduzir os passos daquelas pessoas, a uma vida mais digna e humana, assim como tive e tenho a oportunidade de viver uma nova vida.  O Reino aconteceu comigo e minha família, oro e trabalho para que aconteça cada vez mais em todas as famílias do Borel e do mundo.

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